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Arnaldo Mourthé

7/3/2006

Um extraordinário desafio e uma grande oportunidade

 
O risco de colapso das suas economias impulsionou os países mais capitalizados a uma relação viciosa com os demais povos do mundo, da qual o Brasil não escapa. Nenhuma análise sobre a situação brasileira será válida se desconhecer essa realidade. Vejamos alguns aspectos dessa questão de grande interesse para nós.
 
Uma nuvem de incertezas e obscuridade encobre a Europa. A publicação de uma charge do Profeta Maomé produziu no mundo islâmico uma onda de protestos inimaginável ao espírito aristotélico europeu e particularmente à postura cartesiana dos franceses. Antes desses, a França assistiu, pasmada, outros protestos de migrantes e de seus filhos que não foram ainda admitidos de fato na sociedade francesa, embora o sejam de direito. Por conta disso, milhares de carros foram incendiados, por vários dias, num grito de revolta que percorreu a Terra, em grande parte já insensibilizada pelo pensamento único da dominação do capital financeiro sobre o mundo.
 
A primeira reação do espírito mesquinho é interpretar os protestos contra a publicação das charges com critério pessoal, seus valores e sua própria visão de mundo. As primeiras reações na Europa foram, manifestamente, de considerar os protestos “um absurdo por contrariarem a liberdade de imprensa”, como se isso fosse um valor absoluto, acima dos sentimentos e dos critérios do outro. O que é a liberdade de imprensa senão uma parte da liberdade do ser humano. A ninguém é facultado o desrespeito para com o semelhante. Se esse desrespeito envolve injúria e difamação a lei o capitula como crime. Por que a imprensa teria esse direito?
 
Sem contar que a questão não é apenas de liberdade ou não, porque implica em botar lenha na fogueira de um conflito já aberto entre culturas e religiões, criado artificialmente para justificar a urgia financeira pelo mundo afora e o domínio pelos anglo-saxões do petróleo do Oriente Médio, tendo na frente o Império norte-americano.
 
A questão de fundo é que a política neoliberal de liberdade do capital em detrimento da liberdade do ser humano, já mostrou seus desacertos e sua negatividade, provocando discriminação, exclusão, miséria e sofrimento nos países menos capitalizados e, por isso, objeto de dominação do capital estrangeiro. Essa é uma fase do sistema capitalista mais perversa do que o colonialismo. Somado a tudo isso, a política unilateral americana, com apoio da Inglaterra, de manter sua hegemonia mundial através da dominação das fontes de energia, produziu uma ruptura na aliança das nações mais desenvolvidas na aplicação mundial da doutrina neoliberal, embora eles se defendem não aplicando nos seus países a desregulamentação radical que fizeram e continuam aprofundando no Brasil e noutros países como o México.
 
Os resultados desastrosos do neoliberalismo, e do unilateralismo americano, vêm produzindo grande conscientização através do mundo, impelindo os intelectuais e políticos mais responsáveis a procurarem saídas para os impasses criados. As revoltas dos religiosos mulçumanos e a rebelião das populações de migrantes, deram um susto na Europa provocando uma reflexão sobre a conjuntura internacional que caminha para um conflito generalizado.
 
Felizmente, a Europa tem intelectuais que pensam além de suas fronteiras e de seus interesses mesquinhos. Isso se deve ao humanismo europeu alimentado pelos pensamentos renascentista e iluminista. Suas experiências de metrópoles coloniais ofereceram aos intelectuais informações sobre o mundo e vivências em países das mais variadas culturas, o que os torna mais sensíveis em relação a outros povos, com visões de mundo e objetivos diferentes dos seus. O isolamento americano, por muito tempo, e sua expansão imperial posterior, dificulta essa visão universal, limitada a poucas e honrosas exceções.
 
O confronto dessas duas visões do mundo entre europeus, a da cultura deles e a de outra cultura, enriquecido pela presença de muitos intelectuais migrados de outras culturas, em particular dos mulçumanos, está permitindo um debate sobre o tema das diferenças bastante enriquecedor, o que não é visível no Brasil, apesar de nossa diversidade cultural, porque a grande mídia daqui está monopolizada pelos interesses do capital financeiro.
 
Essas questões, somadas ao agravamento dos conflitos decorrentes das invasões americanas no Médio Oriente e de suas imposições sobre grande parte do mundo, e mais da reação política latino-americana contra o neoliberalismo e império, contribuem para o fortalecimento da oposição política européia ao neoliberalismo e ao unilateralismo americano.
 
O fenômeno latino-americano nós descrevemos sinteticamente no artigo Uma lição a ser aprendida, publicada no portal www.pdt-rj.org.br em janeiro último e o motivo principal dessa reação estão no mesmo portal no artigo Modelo neoliberal, receita de submissão, de 9 de fevereiro. Já é um fato notório a reação do mundo ao modelo neoliberal e ao intervencionismo americano. O que os políticos progressistas do outros países não compreendem é como o Brasil não reage como deveria à intervenção estrangeira nos seus negócios internos e se submete à vontade do capital financeiro. Eles, que tinham esperança em Lula como a maioria do povo brasileiro, não compreendem a passividade brasileira. Até nas eleições essa passividade se manifesta, na medida em que não se tem um candidato com bandeira nítida na defesa da nossa nacionalidade, degradada pela submissão e pela alienação, e dos direitos das pessoas, que vivem um processo de regressão social desconcertante.
 
Também nós, nos fazemos muitas perguntas a cada dia. Onde erramos no passado? Onde estamos errando no presente? A única resposta que nos ocorre é a nossa própria alienação. Há uma tendência ao conformismo, ao relaxo, ao abandono da nossa maneira de ser, dos princípios e dos valores nos quais acreditamos ou acreditávamos, das nossas bandeiras políticas, construídas com a experiência e o sacrifício de nossa gente e de seus líderes. Estamos deixando de construir nossa história para sermos objeto de interesses externos e de uma elite econômica interna alienada, calhorda, corrupta e corruptora, submetendo outras partes das elites ao servilismo.
 
O fato é que a política econômica domina toda a política nacional e é profundamente lesiva aos interesses nacionais e dos trabalhadores. Ela provoca um grande sofrimento da população e vem impedindo qualquer mudança no sentido de superar esse sofrimento, condenando o país à estagnação e à submissão. O que fazer?
 
O primeiro passo é constatar que esse é um problema do país e de sua população que deve ser resolvido. O segundo passo é buscar a causa desse problema que nós identificamos com a política econômica, e com a doutrina neoliberal que a sustenta. O terceiro é saber que esse problema pode ser resolvido. “Não há bem que nunca acabe, nem mal que sempre dure”. E finalmente, devemos construir o caminho para resolver o problema, o sofrimento do povo e a estagnação da nação brasileira. Ignorar os fatos só nos impede de superar nossas dificuldades e perpetuar a ignomínia que nos foi imposta.
 
Em síntese, o que devemos fazer é buscar compreender o momento histórico em que vivemos, discernir sobre suas circunstâncias e ter coragem para tomar as posições corretas que conduzirão a um processo histórico a favor do povo e da nação. O momento é-nos favorável, pois teremos do nosso lado fatores econômicos objetivos, como as riquezas naturais do Brasil, e fatores políticos subjetivos representado pela tomada de consciência da maioria das nações do mundo de que é necessário barrar o caminho do neoliberalismo e, sobretudo, de seu componente mais agressivo, o unilateralismo norte-americano. Dessa forma, contará com forte solidariedade internacional uma ação política equilibrada em defesa do trabalho e da soberania nacional bloqueando eventuais ações intervencionista de Bush e seus aliados.
 
Nós entendemos que o único caminho que o Brasil dispõe nesse momento para se manifestar e mobilizar uma reação política consistente é o trabalhismo. Infelizmente essa bandeira, que sempre foi a de Brizola, continua enrolada e as manobras para substituí-la por outras, rotas ou aventureiras, continuam prosperando.
 
Cabe ao PDT assumir uma posição nítida de resistência às políticas neoliberais e imperiais e trabalhar pela reconstrução da nossa nacionalidade como outros países latino-americanos estão fazendo. Enquanto nos omitimos, prosperam a candidatura de Lula, que volta a crescer por falta de opção, e dá alento aos petistas envergonhados do PSOL que abandonaram o PT, mas permanecem petistas, e buscam esconder o trabalhismo com sua política indefinida e sem compromissos com o povo e com a soberania nacional.
 
Acordar o PDT para assumir plenamente a bandeira trabalhista e partir para um Projeto de reconstrução da nossa nacionalidade é o que precisamos fazer com urgência e determinação.
Rio, 03/03/2006
 
*Secretário de Relações Internacionais do PDT

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