Faltou na coluna de sábado o relato das últimas horas de "Che" Guevara com o cubano-americano Felix I. Rodriguez, no dia 9 de outubro de 1967, na Bolívia. Essa versão, já contada antes nesta coluna, é desse espião da CIA, no seu livro "Shadow Warrior - The CIA Hero of a Hundred Unknown Battles" (Guerreiro da sombra - o herói da CIA em uma centena de batalhas), publicado em 1987.
Documentos secretos liberados depois estão em "Relatório da CIA - Che Guevara", livro de Maurício Dias e Mario Cereghi lançado agora pela Ediouro-CartaCapital. Contam versão parecida. Embora o de Rodriguez seja de memórias, explorou especialmente esse episódio, do qual o espião se orgulha, apresentando como façanha maior de sua vida. O diálogo dos dois, sem testemunhas, foi na sala da casinha miserável que funcionava como escola na selva.
É apenas a palavra da CIA e do próprio Rodriguez, naturalmente colocada em dúvida por outros. Che, baleado, estava deitado no chão da casa - perna direita sangrando, mãos amarradas, roupa rasgada, sem botões, cabelo imundo. Esse aspecto deprimente é confirmado pela única foto de Guevara vivo naquele dia. Soldados bolivianos tinham acabado de matar outro guerrilheiro. A ordem era não fazer prisioneiros. Dois cadáveres estavam ao lado do Che.
"Eu o admiro, comandante"
"Guevara, quero falar com você", disse Felix Rodriguez, o espião da CIA. Ainda no papel de comandante, segundo o livro, Che respondeu com decisão: "Ninguém me interroga". "Comandante, não vim aqui para interrogá-lo. Temos ideais diferentes, mas eu o admiro. Era ministro de Estado em Cuba, e veja agora como está. Reduzido a isso por acreditar em seus ideais. Vim para conversar com você".
Segundo Felix, Guevara acabou concordando em conversar. Pediu para ficar sentado. O espião mandou um soldado boliviano entrar e desamarrá-lo. Em seguida os dois falaram da escolha da Bolívia para "exportar a revolução", dificuldades encontradas, problemas econômicos de Cuba, e da escolha dele por Fidel para presidir o Banco Nacional de Cuba e liderar depois guerrilhas na África.
De acordo com o livro, Che negou-se a falar de detalhes da operação guerrilheira na Bolívia. Disse que nada poderia revelar. O agente perguntou então se seria capaz de adivinhar de onde vinha ele, Felix (usava o codinome Felix Ramos). "Você é portorriquenho ou então cubano", respondeu o guerrilheiro. Pela resposta, Che presumia tratar-se de um especialista da CIA em interrogatórios.
No rádio, a morte de Guevara já era anunciada. Avisado disso do lado de fora, Felix contou ter entrado de novo na casa, dizendo ao guerrilheiro que a ordem para matá-lo fora expedida pelo Comando Supremo da Bolívia. "Quer transmitir uma última mensagem a alguém?", perguntou. "Diga a Fidel que em breve ele verá o triunfo da revolução na América", respondeu o Che.
A CIA dá a ordem, Guevara morre
No relato do espião a resposta do guerrilheiro é apresentada em tom de queixa contra Fidel pelo abandono a que teria sido relegado pelo líder cubano. Che continuou: "E diga a minha mulher para se casar de novo e tentar ser feliz". O homem da CIA usava nome falso e a patente de capitão do Exército boliviano. No livro diz que em seguida os dois se abraçaram, em momento de grande emoção.
"Eu não o odiava mais", disse Felix. "Sua hora da verdade tinha chegado. E ele se conduzira como homem. Estava enfrentando a morte com coragem e altivez". O espião afirmou ter saído da escola em seguida, e dado a ordem aos bolivianos (um tenente e um soldado), do lado de fora, para que não atirassem no rosto - apenas do pescoço para baixo, aparentemente para a identidade do morto não ser contestada.
Minutos depois, ao ouvir os tiros, o agente da CIA olhou o relógio: Che morreu uma hora e dez minutos da tarde. Felix (Rodriguez/Ramos) disse ter preferido deixar aos próprios bolivianos a encenação da farsa - matar o guerrilheiro amarrado e depois fingir que a morte fora no campo de batalha. Mais tarde o corpo foi amarrado do lado de fora do helicóptero no qual o agente da CIA retornou a Vallegrande.
A versão expõe a submissão dos militares bolivianos e o desprezo com que eram tratados pela CIA. O próprio espião recebera o posto de capitão do Exército da Bolívia, ou seja, era autoridade local, com carteirinha e tudo. E reuniu ali todos os documentos do Che (inclusive o diário). Fotografou cada página, à luz do sol, lá mesmo, em La Higuera, com duas câmeras, Pentax e Minox, que tinha levado.
O roubo do relógio Rolex
O conteúdo, assim, foi examinado pela CIA antes de chegar às autoridades bolivianas. Felix contou ainda que depois da morte do Che, apropriou-se de seu relógio Rolex, "como souvenir". Pegou-o para examinar e iludiu os bolivianos, trocando-o às escondidas pelo Rolex que ele próprio usava. O espião vangloriou-se também, no livro, de ter enganado os bolivianos na hora das fotos, antes da execução.
Os militares bolivianos queriam ser fotografados ao lado do Che. Entregaram uma câmera a Felix para que apertasse o botão. Ele o fez, mas antes alterou velocidade e diafragma, para inutilizar as chapas. Depois pegou sua própria Pentax e ajustou a velocidade e o diafragma corretamente, pedindo a um boliviano para apertar o botão. É esta, disse ele, a única foto existente de Guevara vivo - sujo, rasgado, mãos amarradas, ao lado de Felix. O filme foi direto para a CIA.
O espião contou ainda no livro que o general Ovando Candia (mais tarde ditador) queria conservar a cabeça de Guevara para exibir no caso de alguém - Fidel, por exemplo - duvidar da morte do guerrilheiro. Mas o chefe militar boliviano foi convencido pelos americanos a arrancar apenas as mãos, com as impressões digitais.