A partir do governo Marcelo Alencar, a política de segurança passou a ser baseada em falsa premissa: o elemento propulsor da criminalidade é o crime organizado, reduzido ao tráfico de entorpecentes nas favelas.
Incorporada a visão militar ao combate à criminalidade, definido o inimigo a ser eliminado, os pobres, o confronto foi exacerbado..
A segurança pública passou a ser equiparada à guerra convencional.
A mesma política, atravessou além do Governo Marcelo Alencar, os governos Garotinho/Benedita, Rosinha e metade da administração Sergio Cabral.
As conseqüências do erro e dos crimes praticados pelo aparato do Estado saltam aos olhos, embora os governantes se demonstrem convictos.
Afinal, quais as conseqüências: Primeiro, as operações de grande vulto desviam as instituições policiais de suas destinações constitucionais. A PM se distanciou do policiamento ostensivo e preventivo, e a Policia Civil da investigação criminal. Prevalece a Polícia do espetáculo. É rotina, antes, durante e depois das operações policiais a suspensão das aulas e dos atendimentos hospitalares, a paralisação dos transportes e o fechamento do comércio sem falar nas balas achadas e perdidas.
Segundo, o morador de favela morto já está previamente rotulado de traficante, e o policial morto é apresentado como suspeito ou já envolvido na prática de crime.
Terceiro, a polícia do Rio é reconhecida como a que mais mata e também a que mais morre. O número de autos de resistência (mais ou menos 1300 por ano) é a prova principal. Nos últimos 14 anos, em cada um deles, cerca de 150 policiais, a maioria esmagadora de PMs, foram mortos por arma de fogo. Muitos ficaram incapazes, inclusive paraplégicos e tetraplégicos. O Hospital da PM começa a ser identificado como especialista no atendimento de feridos de guerra.
O ódio social, decorrente da continuada política do confronto, levou os policiais ao anonimato. A farda sequer pode ser pendurada na corda para secar, a carteira de identidade é levada no sapato. O Policial não sabe como proteger a sua própria família..
Paralelamente à política do confronto que impõe ao policial o direito de matar e morrer em nome do Estado, as condições de vida e de trabalho foram precarizadas com o progressivo arrocho salarial, com escalas escorchantes, a desagregação e a repressão internas.
O bico extenuante é a alternativa como complemento salarial.
A ética incorporada à ação externa da policia é a mesma que preside o relacionamento interno, a ética do desrespeito a valores e direitos fundamentais.
Se de um lado é grande o desespero e a revolta, criados por um modelo que joga pobres contra pobres, na medida em que os policiais são oriundos das comunidades que eles próprios são levados a reprimir, alcançando de forma diferenciada as camadas mais favorecidas, como fica a cabeça das pessoas envolvidas?
Um exemplo: as obras do PAC no Complexo do Alemão foram precedidas de uma operação policial que ceifou a vida de 19 jovens. Uma senhora disse que queria e precisava das obras, desde que elas não viessem banhadas com o sangue dos filhos da comunidade.
A população sobrevive à insegurança, os policiais sobrevivem ao estresse profissional. É expressivo o número de policiais ativos com diagnóstico psiquiátrico, com graves problemas psicológicos, e outras doenças de fundo nervoso, hipertensos e angustiados.
Urge reconhecer que o modelo de segurança, que precisa ser repensado, não atende a população e está levando os policiais à loucura.
Chega de insanidade.
A culpa é do Governo