Nós, trabalhistas, estamos com a alma ferida. Mas não somente nós, do PDT e sim todos os companheiros e companheiras da verdadeira esquerda, que se opõem ao modelo capitalista que ainda domina e escraviza o povo brasileiro e espolia os trabalhadores do mundo inteiro. Nós, que ainda sonhamos com um Brasil livre, soberano, emancipado e carregamos em nosso peito a utopia de uma civilização e de uma cultura mestiça singular predestinada a ser uma grande nação. Mesmo alguns conservadores, que apesar de não serem de esquerda, mas não abrem mão da luta pela democracia, estão indignados, perplexos com as matérias do Jornal O Globo sobre os relatórios do Serviço Nacional de Informações (SNI), com críticas e denúncias não comprovadas que tentam, mais uma vez, denegrir a imagem de Leonel Brizola.
A luta por transporte público de qualidade
A manchete que tenta induzir o leitor desavisado a crer que Brizola teria recebido propina de empresas de ônibus, ligação com o jogo do bicho e que seu governo fora o responsável pelo crescimento das favelas e da violência no Rio de Janeiro, não é uma matéria jornalística, mas sim, mais uma calúnia das Organizações Globo contra o maior líder popular de esquerda do Brasil no século XX desde Getúlio Vargas. Nos lembra o auge dos embates entre nosso Davi contra o Golias da mídia. Desta vez, para caluniar, O Globo buscou nos porões empoeirados da ditadura, o resquício do ódio que as elites possuem a Brizola, expresso nos documentos dos órgãos de repressão e perseguição do regime militar. Acusar Brizola de ter recebido propinas das empresas de ônibus chega a ser patético. Logo ele, o único governante que teve a coragem de enfrentar o monopólio pernicioso das empresas privadas de ônibus e encampou dezesseis empresas que não prestavam serviços dignos à população. Ele que, apesar da campanha contrária da imprensa comprometida com o capital, resgatou a Companhia de Transportes Coletivos (CTC) do Estado do Rio de Janeiro. O fez com a mesma coragem que o levou a encampar duas gigantes multinacionais norte-americanas (ITT e Bond and Share) nos anos 50, quando era governador do Rio Grande do Sul. Logo ele, o político mais perseguido e vasculhado pela ditadura militar e pela CIA por mais de 20 anos, sem que nada pudesse ser utilizado contra a sua integridade e conduta ética e moral.
Ao contrário, quem tinha estreita ligação com os empresários de ônibus era o candidato da família Marinho, Moreira Franco, que devolveu, em seu governo, as empresas estatizadas aos seus donos e ainda indenizou os empresários com dinheiro público.
Por que os ataques de agora?
Os ataques não surpreendem. A família Marinho apoiou o golpe militar que derrubou o governo João Goulart e desde o dia 1º de setembro de 1969, em plena ditadura, entrava no ar o Jornal Nacional que ao longo dos seus 40 anos especializou-se em manipular a informação, especialmente quando os fatos ameaçavam o interesse das elites e do poder estabelecido. Assim, a emissora apoiou à ditadura, se associou a Antônio Carlos Magalhães na Bahia, defendeu o governo Sarney. Elegeu Collor e FHC e, é claro, atacou Brizola até o último suspiro do líder trabalhista. Quando do anúnciou de sua morte, a família Marinho simulou um mea culpa e parecia ter finalmente reconhecido publicamente, o que sabia em oculto: a envergadura,liderança, honestidade e coerência de seu maior inimigo político. Mas hoje vemos que era mesmo tudo um simulacro midiático.
A Globo atacar Brizola não é novidade. O que nos deixa estarrecido é que a família Marinho, que perseguiu dirariamente Brizola em vida para impedí-lo de chegar à Presidência da República, o faz agora, após quase cinco anos de sua morte. Por quê?
A resposta é até difícil de ser respondida. Somente o ódio histórico, o pavor ideológico e a revanche descabida parecem ter a resposta. Ou seria a tentativa de antecipar as eleições estaduais e presidenciais e levantar o embate maniqueísta entre direitos humanos e política de extermínio para fortalecer as candidaturas de seus capachos de direita? Ou tudo isso e para também atender aos interesses do sr. José Sarney, remanescente mumificado da ditadura e que hoje tenta se apresentar como a novidade moralista e “ética” do Senado Federal?
Sinceramente, não tenho a resposta para os ataques de hoje. Os do passado, se justificavam. Brizola era a ameaça de seus privilégios. Representava a ruptura do modelo econômico, do sistema, do poder estabelecido da qual a Globo sempre se beneficiou.
Ele dizia publicamente: seu primeiro ato, na primeira manhã de seu governo a frente da Presidência da República seria o de questionar o monopólio da Globo e das mídias. A emissora seria estatizada. Que bom teria sido para a democracia e para o país.
Proconsult: a Globo foi a matriz da fraude
O Globo fala da ditadura militar como se não tivesse nada a ver com o regime no qual a empresa engordou, se sustentou e criou um império midiático. Fala da participação do SNI no caso Proconsult, a fracassada tentativa de fraude que tentou impedir a eleição de Brizola ao governo do Rio, em 1982, como se não tivesse nada a ver com a tramóia golpista, da qual participou ativamente junto com o Ibope, divulgando números em favor do candidato do regime militar, Moreira Franco (PDS). Os dados não condiziam com a verdade das urnas. Para o bem da democracia e do povo do Rio de Janeiro, a Rádio JB, que fazia uma apuração à parte e acompanhava o resultado oficial do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), denunciou, a tempo, a fraude. Brizola reuniu a imprensa internacional e acusou as Organizações Globo de fazer parte da farsa criada pelo regime militar. A Globo foi pega em flagrante. Jornalistas que trabalharam na empresa, como Eliakim Araújo e Paulo Henrique Amorim conhecem bem essa história e confirmam tudo. Após o resultado oficial, foi contrangedor para o jornalista Armando Nogueira ter de explicar o inexplicável e defender a emissora.
A conspiração contra a educação integral de qualidade
Notem como todas as acusações insólitas dos arapongas que serviam aos intrumentos de perseguição da ditadura militar possuem perfeita sintonia com o discurso da mídia, especialmente da Globo, contra Brizola. Quem não se lembra da disseminação das calúnias que acusavam o governo pedetista de ter “ligação com os chefões do jogo do bicho”, de ter sido o responsável pela “explosão das favelas e da violência”, e de que “Brizola havia liberado o tráfico de drogas nos morros”? Essas infâmias, repetidas por setores das elites e da classe média conservadora e por todos aqueles que odeiam os pobres, os negros e pregam uma política de extermínio, hoje em pleno vigor, ficaram no imaginário de muitos. Mas passado mais de vinte anos ficou claro que o crescimento da miséria e da desigualdade têm como causa a ausência de uma política de reforma agrária e de um projeto nacional de educação e de desenvolvimento, as causas históricas do problema, que hoje atingem todas as grandes e médias cidades do país. Somos obrigados a refazer a pergunta óbvia aos ardilosos opositores de sempre: e em São Paulo e nas outras grandes metrópoles de quem é a culpa pelo crescimento das favelas, da miséria e da violência? A culpa é do Brizola? O Brasil sabe que não. E que Brizola e Darcy Ribeiro, mais uma vez, tinham razão. A educação integral, de qualidade, gratuita, democrática para todas as crianças brasileiras representa o primeiro e primordial passo para a redenção e emancipação do povo brasileiro. Não o único, é claro. Mas a educação é fundamental para criar meios de reflexão crítica quanto à realidade a fim de que o sujeito possa se localizar, interferir e transformar essa realidade, rompendo modelos e paradigmas.
E com que ódio a Globo combateu o projeto dos CIEPs! Não podiam tolerar crianças pobres e negras numa escola integral gratuita de qualidade, com atendimento médico e odontológico, práticas esportivas e culturais, biblioteca e aulas de “teleducação”, onde a criança refletiria toda a programação que a mídia lança sobre seus lares e relacionaria o discurso midiático com a sua dura realidade, despertando para as contradições do simulacro eletrônico. As elites impediram ou mais uma vez adiaram o sonho do projeto redentor de uma educação pública integral de qualidade para todas as crianças brasileiras. Eles odeiam os pobres. Ainda hoje não há um projeto nacional de educação e a lógica do discurso formal de ensino predominante apenas reproduz e sustenta a hegemonia do sistema. Digo isso no momento em que o governo Lula anuncia um corte de mais de 10% na educação por causa de uma crise criada por banqueiros e especuladores. O governo gasta mal na espinha dorsal de uma sociedade que aspira se desenvolver e ainda anuncia cortes de investimentos.
As elites (nacionais e estrangeiras) sempre souberam dessas verdades. Por isso tramaram contra Brizola e contra os projetos trabalhistas de emancipação do povo brasileiro. A começar pelo projeto educacional.
Aliás, lá nos pampas, já havia iniciado um projeto educacional, construindo mais de cinco mil escolas, que praticamente reduziu o analfabetismo no estado a zero.
O recalque dos militares
Com sua coragem peculiar, Brizola liderou uma rebelião popular armada, a cadeia da legalidade, que em agosto de 1961 garantiu a posse de João Goulart e impediu naquele momento a sanha golpista. O líder gaúcho desafiou as Forças Armadas para um confronto, se necessário, a fim de defender a democracia. Os militares recuaram. O recuo feriu o ego dos generais, que jamais o perdoaram.
Em 1964, o golpe militar se consolidou. Brizola defendeu a resistência, mas Jango não topou o derramar de sangue, restando para ambos o exílio. O Globo estava lá em oposição ao governo trabalhista e em defesa da ditadura militar. Com o apoio, a família Marinho construiu o seu império midiático, que hoje declina a passos largos no caminho da decadência.
As infâmias não são novas e ressucitam atos desprezíveis de uma velha e conhecida covardia de quem se esconde por trás de linhas mal traçadas para manter o establishment e seus próprios privilégios à custa do sofrimento do povo brasileiro. O acusado não está presente para, com a coragem de sempre, se defender. Cabe a nós, trabalhistas, a obrigação histórica de defender a memória do líder. Mas cabe também a todos os democratas, cidadãos independentes, lúcidos e livres e a todos que não têm comprometimento com o sistema dominante e não temem os bramidos arrogantes e autoritários do império da família Marinho, reponder e repudiar mais estes injustos ataques contra um personagem tão honrado e coerente da política brasileira e universal. Brizola não merece isto.
A ditadura acabou. Mas seus fervorosos herdeiros ainda não. O povo não é bobo. Todo mundo sabe que as Organizações Globo perseguiram e atacaram Brizola em vida, até o último suspiro do líder trabalhista, em junho de 2004. Após sua morte, a emissora simulou um mea culpa. Mas agora, que caminha a passos ligeiros para uma decadência inevitável, a Globo se superou, numa covardia asquerosa. É pena que, desta vez, a vítima de mais essas calúnias não esteja em vida para responder e resgatar a verdade ocultada pela mídia e esquecida pelo silêncio de políticos, intelectuais e jornalistas.
Ele se foi, mas seu legado permanece. Brizola vive!
Carlos Vasconcellos – jornalista e professor universitário