Como para se redimir dos sucessivos escândalos e da inoperância que tomaram conta da casa nos dois últimos dois anos, o Senado Federal aprovou, em votações seqüenciadas, na noite desta quarta-feira (19), três projetos da maior relevância, que contam com maciço apoio de dezenas de instituições respeitáveis e visível clamor das ruas.
O Ficha Limpa, de iniciativa popular, apresentado com mais de um milhão e meio de assinaturas e que impede políticos condenados pela Justiça de se candidatar; o projeto que reajusta as aposentadorias acima de um Salário Mínimo em 7,7% , e o projeto que acaba com o Fator Previdenciário -- contestado e perverso mecanismo que reduz em até 40% o valor das aposentadorias.
Mas, apesar de aprovados com amplo apoio e pressão popular, primeiro na Câmara dos Deputados e agora no Senado, para entrar em vigor, pelo sistema presidencialista brasileiro, infelizmente, as três leis precisam ser sancionadas pelo presidente Lula. Que tem o poder, numa só canetada, de vetar, parcial ou integralmente, qualquer um, ou todos os três projetos...
Resta saber se o ex-sindicalista -- que já recebe mensalmente uma significativa aposentadoria e, a partir de janeiro, passa a ganhar uma segunda aposentadoria, pelos 8 anos como presidente da República -- vai tomar a decisão de vetar pautado no apego pelo poder; nas alianças políticas e no argumento desumano que o governo pode cobrir qualquer déficit, menos o gerado para proporcionar um fim de vida digno para os idosos brasileiros. Ou vai consultar sua consciência, seu passado de lutas em favor da democracia e dos trabalhadores e sancionar na íntegra os três projetos.
Seus líderes na Câmara e no Senado, Cândido Vacarezza e Romero Jucá, respectivamente -- que foram orientados e fizeram de tudo, até o último minuto, para atrasar a votação dos projetos -- tem dito e repetido, em idas-e-vindas, com boa dose de terrorismo, que o "presidente Lula vai ter que vetar alguma coisa, alguma cláusula ou mesmo tudo". Esbravejam os lideres que o Fim do Fator Previdenciário será vetado, "com certeza".
Se assim o fizer, o presidente, além da incoerência, estará aplicando dois pesos e duas medidas. Foi Lula que capitaneou o PT para votar contra o Fator Previdenciário quando ele foi criado e enviado ao Congresso pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso!
Os brasileiros, neles incluídos os sofridos aposentados e os que esperam um dia se aposentar com dignidade, que o elegeram e reelegeram, mais do que torcer, rezam para que o presidente, na hora de pegar a caneta, "incorpore" o espírito daquele Lula do passado. E que o filho de Garanhuns, depois filho do ABC, depois filho de São Paulo e, finalmente, o filho do Brasil, "psicografe" uma assinatura que não envergonhe a pátria-mãe. Nem os outros filhos dela, seus 190 milhões de irmãos.
Irmãos-eleitores, que não querem mais, inadvertidamente, votar em candidatos ficha-suja; irmãos-aposentados, que querem apenas míseros 1,5% a mais de reajuste do que foi determinado; irmãos-trabalhadores que, depois de 35 anos de trabalho árduo, aspiram o legítimo direito de se aposentar dignamente. Não com o mesmo valor das aposentadorias do irmão ilustre, mas, que também não seja com quase 50% a menos do valor pelo qual contribuíram para o INSS durante a maior parte da vida.
Irmãos que depositam esperanças que Lula aja como um verdadeiro filho-do-Brasil. E não como um verdadeiro filho-da-mãe!!
*Cláudio Monteiro é jornalista profissional