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Velho Briza, diziam


Os principais adversários de Leonel Brizola vão se perdendo nas entrelinhas da história. Alguns deles chegaram a níveis muito altos de importância política em seu tempo, mas não se fizeram marcar como personagens da grandeza ou da tragédia de um momento que a história não consiga esquecer. O levante iniciado e liderado por Brizola em defesa da legalidade constitucional e do regime democrático contra o golpe que as Forças Armadas perpetravam, em 1961, é um dos momentos épicos que demarcam a história, indeléveis e quase sempre únicos.

Um governador que lá do último sul ousa dizer "não aceito" às Forças Armadas do país todo, e só com a sua polícia militar inicia uma resistência cuja convicção conquista parte dos militares estacionados no Estado, e vence afinal -essa é uma cena a que ninguém pode negar o lugar de culminância na penosa luta pela democracia no Brasil. Culminância diferente da outra, a resistência armada à ditadura, porque não se nutriu de razões ideológicas, do projeto de revolução social, mas tão só da legalidade e da democracia como expressa na Constituição.

A coragem pessoal e política de Brizola já lhe reservaria um lugar especial no último meio século brasileiro. Mas a lealdade que teve às suas idéias, por tanto tempo, é outra característica pessoal e política sem paralelo entre os seus adversários e aliados. Em outro aspecto, o da lisura, não seria caso isolado, mas é caso único em um sentido: ninguém teve a vida mais esmiuçada pelos Inquéritos Policiais Militares, às dezenas, algumas investigações por mais de dez anos; nenhum governador foi jamais tão espionado, grampeado, seguido, investigado quanto Brizola quando governador do Rio -e nada, nunca foi encontrado sequer vestígio de improbidade.

O esquerdismo de Brizola era, sobretudo, o nacionalismo. Integral, inviolável, o nacionalismo que, se igual nos militares com seu mito de patriotismo, os levaria a vê-lo como aliado. Odiaram-no como a nenhum outro político, nem G etúlio, nem mesmo Jango. Nacionalismo que deveria ser um ponto de aceitação de Brizola pelos comunistas. Abominaram-no como abominavam Lacerda. Mas, nesse caso, houve certa reciprocidade: a Brizola parecia intolerável a íntima relação de Jango com os comunistas, à qual atribuiu, já na época e até o fim, parcela muito grande da deterioração que antecedeu o golpe de 64. Àquela relação atribuiu, também, uma parte de sua própria radicalização no decorrer do governo de Jango, sendo a outra parte devida ao pressentimento de golpe da direita. Brizola imaginava conter o que considerava as duas ameaças.

Todo chefe político é um tanto caudilho, mas Brizola não cuidava de ao menos disfarçar esse componente, antes o exercia com evidência plena. Nas questões que tivesse como secundárias, fez política com o mesmo humor que exercia no convívio. Nas divergências que punham em questão assuntos a seu ver primordiais, foi sempre capaz de passar do gaiato "sapo barbudo" ao "traidor", e coisas assim, sem a menor complacência. Mas não tinha um traço comum aos caudilhos: Brizola não era vingativo. 

Durante seu primeiro governo no Rio, teve que enfrentar, ou suportar, um canhoneio terrível do sistema Globo. Vinha de longe, além das divergências políticas, a inimizade de Roberto Marinho e Brizola. Ao assumir o segundo governo, Brizola encontra um fato surpreendente: o Projac, o grande centro de produção de novelas e seriados da TV Globo na Barra da Tijuca, estava em finalização, mas fora construído sem o obrigatório exame de impacto ambiental. Estava erguido em área onde o plano urbanístico proibia aquele tipo de construção e de atividade. Brizola repeliu o prato de vingança que alguns lhe mostravam, com a possibilidade de arruinar o investimento gigantesco do grupo Globo. Em vez disso, buscou um modo de legalizar o Projac.

Convencido de que a linha dura tentaria outro golpe ao fim do governo igueiredo, Brizola chegou a propor a extensão do mandato do general. Foi dos primei ros a integrar a campanha das diretas, mas o gesto anterior ficou como cobrança inesquecível. Obcecado com problema da infância em geral e da infância pobre em particular, achou que investimentos de Collor na multiplicação de Cieps, os centros de educação integral, justificariam seu apoio a uma Presidência lamentável. O gesto ficou para cobranças que o acompanharam desde então. Brizola nunca pediu, nem precisou fazê-lo, que esquecessem o que disse
ou escreveu. Nunca traiu o que ofereceu aos eleitores como seu governo. Entre seus erros e acertos estiveram sempre a franqueza com os outros e
a lealdade a si mesmo.

Brizola foi um homem sofrido de uma vida bonita.

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