“Estão construindo um apartheid social que coloca a pobreza no gueto e é preciso acabar com isto”, afirmou neste sábado (20/10) o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, ao se reunir na desativada "Casa da Paz", no interior da favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, com representantes da comunidade. O objetivo de Lupi, inicialmente, era conversar com representantes dos operários da fábrica GE, próxima à favela, que ameaça fechar as portas e demitir 900 trabalhadores; mas eles não compareceram no local.
“A história do Jacarezinho é a história do trabalhador, das indústrias que se instalaram aqui e que agora, aos poucos, estão fechando”, comentou Lupi, após assistir a apresentação de um vídeo sobre a progressiva degradação da região que já foi um dos pólos industriais mais importantes do Rio, na década de 20. Segundo Lupi, a desativação das fábricas e o avanço da pobreza e da violência na região, não são responsabilidades dos trabalhadores – são conseqüência da omissão do poder público.
Lupi chegou ao Jacarezinho pela manhã, apesar de ser expressamente desaconselhado a ir à comunidade devido a "insegurança" no local. Armado apenas de seu celular, como brincou, Lupi concedeu coletiva na quadra da escola de samba do Jacarézinho onde a maioria dos jornalistas, por receio, preferiu ficar. De lá seguiu a pé para o interior da favela, sem qualquer esquema de segurança, acompanhado do vereador Pedro Porfírio, da presidente da Secretaria Nacional do Movimento Negro, Edialeda Nascimento; de integrantes da Executiva do PDT municipal, entre eles Jorge Vieira e Domício, de alguns assessores, como Toninho Albuquerque, e de vários moradores ligados ao movimento "Jacarezinho quer Paz".
Depois da caminhada documentada por uns poucos fotógrafos e o cinegrafista da Rede TV, Lupi chegou à "Casa da Paz", onde dezenas de moradores o esperavam. Seu objetivo inicial era se reunir, como tinha marcado, com os trabalhadores da GE: “Quero ver de que maneira posso ajudar a reverter o fechamento dessa industria – seja através de financiamento do BNDEs, seja através de cursos de qualificação ou conversando com o governador Sérgio Cabral e o presidente Lula, em busca de incentivos. Estou à disposição para criar mecanismos que garantam a empregabilidade, afinal este é o meu papel como ministro do Trabalho”, afirmou.
Lupi, antes da reunião, percorreu as instalações da Casa da Paz – uma nova versão dos Centros de Cidadania criados

no segundo governo Brizola pelo então secretário Nilo Batista, onde funcionavam simultaneamente serviços de várias secretarias estaduais e municipais. Na "Casa da Paz", desativada, funcionavam serviços ligados as áreas de Segurança Pública, Ação Social, Educação, Meio Ambiente, Defensoria Pública, Faetec, Cultura, Detran, Fundação Leão XIII, além de aulas de recuperação e cursos de informática.
A "Casa da Paz" do Jacarezinho, como também a da Rocinha, segundo os moradores, estão desativadas desde a posse de Sérgio Cabral, em janeiro último. Segundo os moradores, o único setor que ainda funciona, precariamente, é a seção local do SINE, ligado à Secretaria estadual do Trabalho, mantido com recursos do Ministério do Trabalho e Emprego.
Lupi se comprometeu com os moradores a procurar imediatamente o governador Sérgio Cabral para que a Casa da Paz do Jacarezinho seja reativada e mobilizar a União para que o governo federal possa ajudar na manutenção da instituição. “Temos que criar mecanismos para resolver os problemas da Casa da Paz juntando a União, o Estado e o Município em benefício do Jacarezinho”, declarou.
Lupi, que fez questão de entrar no Jacarezinho sozinho e sem seguranças, faltou também do simbolismo de sua presença. “Minha presença aqui mostra ao Brasil que é possível entrar tranquilamente em uma comunidade pobre e sair, sem problema”, disse. E acrescentou: “Não é a primeira vez que venho ao Jacarezinho. Há muita paranóia e é preciso ter capacidade de entender que ninguém nasce no crime - a sociedade é que leva ao crime. É claro que o crime organizado precisa ser combatido, mas não é admissível que se mate primeiro para depois perguntar quem é”, afirmou.

Lupi percorreu as ruas internas da favela na companhia dos integrantes da associação de moradores e, também, de pastores evangélicos. Inicialmente estava prevista uma segunda reunião dentro de um tempo evangélico, mas se realizou uma única reunião na "Casa da Paz".
Na segunda-feira (22/10), pela manhã uma comissão de operários da fábrica GE foi ao gabinete do ministro do Trabalho no Rio de Janeiro, na Av. Antonio Carlos. Mas como o encontro não foi previamente agendado e o ministro tinha viaja já marcada para Brasília, a comissão foi recebida por assessores do Ministério que se comprometeram a convocar os trabalhadores para uma reunião para discutir a questão da GE, já na próxima semana. Lupi também está disposto a procurar os diretores da GE, para conversar sobre os problemas e, na medida do possível, evitar o seu fechamento e a perda dos 900 postos de trabalho. (Osvaldo Maneschy)