Vera Malaguti: “Muro nas favelas é cerco fascista sobre pobres”
A socióloga Vera Malaguti, mulher do ex-governador Nilo Batista, deu importante entrevista para o “Correio da Cidadania” cometando o projeto do Governador Sérgio Cabral e de seu aliado, o prefeito Eduardo Paes, de construírem 11 mil metros de muros, com três metros de altura, começando pela Zona Sul, para limitar segundo eles, o avanço dos barracos sobre as matas e encostas – impondo o que chamam de “ecolimites” – idéia apoiada pela mídia em geral, especialmente a TV e o jornal “O Globo”.
Nesta entrevista a Gabriel Brito e Valéria Nader, a pesquisadora do Instituto de Criminologia Carioca (ICC)m garante que “os pobres do Rio vivem dias de horror”. E explica: “o que vemos é a expressão de um fascismo estatal mancomunado com grandes interesses econômicos”.
Na sua opinião abalizada, os pobres do Rio de Janeiro estão sendo vítimas da crescente truculência oficial patrocinada pelos poderes públicos, vistos como uma espécie de “lixo humano” que precisa ser removido, já que a presença dos favelados seria prejudicial aos grandes negócios e à especulação imobiliária.
Como vê a idéia do governo do Rio de construir muros no entorno das favelas sob a alegação de preservar
áreas verdes?
-- É um absurdo e vem junto do circo de horrore do qual vem sendo palco o Rio de Janeiro, através de extermínios da Polícia (a quem mais mata no mundo), das remoções dos pobres, da demolição de casas em áreas populares ilegais... Enfim, é todo um festival de truculência, em articulação da prefeitura com o governo do Estado, completamente ligados aos grandes negócios privados, como os desportivos e impondo um cerco fascista sobre os pobres. E, além do muro, que é uma vergonha, as remoções voltaram à agenda.
Todo o processo é capitaneado pelas Organizações Globo, com campanha diária no RJ-TV (telejornal local), no jornal “O Globo”, sempre focalizando a pobreza como detrito, como algo que conspurca o ambiente. E tudo em nome dos grandes negócios privados. Uma vergonha!
O Rio de Janeiro talvez esteja passando pelo seu pior momento desde Carlos Lacerda. Parece uma volta, com força total, da UDN. Terrível.
O que acha do fato das favelas escolhidas para receber os primeiros muros se localizarem em bairros nobres ou de classe média – mesmo com a expansão recente dessas favelas estar abaixo dos índices considerados preocupantes?
-- Aí fica clara a parceria do governo com a especulação imobiliária. Afinal, são áreas nobres e ter pobres ali não lhes interessa.
É tão chocante, tão obvia, essa mistura de truculência fascsta com parcerias-público-privadas sinistras! Estou sendo enfática, mas é que chegamos em um ponto... Ontem mesmo houve o assassinato pela polícia de um menino da Maré. A população tentava protestar e foi reprimida da pior forma possível pela mesma policia. E tudo sempre sob a desculpa do tráfico...
Acho que o fim do brizolismo no Rio foi muito ruim. Para exemplificar, uma das coisas que O Globo fez para comemorar os 45 anos do golpe militar foram acusações levianas sobre o (ex-governador) Leonel Brizola, ao mesmo tempo em que o associava ao crescimento das favelas. O vazio criado por sua morte, junto ao estraçalhamento das forças de esquerda, deixou o fascismo ocupar a cidade.
Ao se junta tal ação com a também recente medida dos choques de odrem, vemos que as politicas de higienização nas grandes cidades têm sido levadas ao paroxismo, não?
-- Exactamente. O velho projecto fascista, com essa maneira de olhrar os pobres como lixo humano na cidade, se consolidou, sendo orquestrada também pela grande imprensa tal proposta de apartheid.
Os pobres no Rio de Janeiro vivem dias de horror. Acho que as forças de esquerda, libertárias, precisam se organizar contra isso. Tudo começou pela questão criminal, o que e um problema, pois até a esquerda embarca no discurso de luta contra o tráfico – sempre localizada nas favelas.

Daí para choques de ordem, remoções, muros, é um passo. É um projeto higienista reciclado, em nome da ordem na cidade, dos grandes negócios de Copa (Mundial), Olimpíadas, dos grandes capitais que circulam no Rio. Tais negócios são uma obsessão para o governo e a prefeitura, que sempre estão em viagem buscando grandes investimentos.
Enquanto isso, pau nos pobres aqui. É um projeto sinistro.
Essas medidas podem potencializar o ódio entre classes, na medida em que reforçam uma idéia segregacionista?
-- Claro, isso não vai dar certo. Durante um tempo, algumas forças progressistas do Rio aceitaram a agenda criminal da direita e assim o fascismo encontrou sua brecha, sendo que acaba se alastrando para a questão habitacional, ambiental, onde muitas vezes se refugia, como neste caso dos muros, aliás.
Uma vereadora do PDT foi uma das que mais deenderam os muros, sempre fala em remoções de favelas na Zona Sul, como a dos Tabajaras, uma vez que as áreas verdades da cidade se concentram mais na Zona Sul e Posto 9.
Tais equívocos abrem o caminho para o fascismo mais explícito, que vemos nessa mistura de truculência contra os pobres e grandes negócios (com ilegalidades) particulares.
Você acredita que o levantamento dos muros vai impactar de alguma maneira, ainda quea curto prazo, os índices de criminalidade?
-- Acho que vai emparedar os pobres e produzir outros efeitos, intra e extramuros. É mais uma grande violência, portanto, entrará nesse moinho gerador de ódos.
Espero que isso possa ser barrado, apesar de todo o esforço da grande imprensa. Fazem pesquisas dizendo que os favelados são favoráveis à remoção,

pesquisas para legitimiar tais ações... Não deve faltar sociólogo para fazer esse tipo de trabalho e dizer que os pobres estão doidos para serem emparedados e removidos da cidade.
No Rio de Janeiro, neste momento, essas forças que envolvem institutos de opinião, empresas depublicidade, grande imprensa, sector imobiliário, estão totalmente articuladas na varredura da pobreza da cidade. E da pobreza rebelde, que é marca do Riode Janeiro há muito tempo, pois foi uma cidade quilombola, depois janguista, brizolista...
Estamos diante de um conjunto de interesses escusos, mais uma “blitzkrieg”.
Diante do quadro atual, quais medidas seriam efetivas a seu ver, tanto a curto como a longo prazos?
-- O inverso disso tudo, uma outra maneira de olhar a cidade. Construir pol~iticas habitacionais democráticas, projetos em que as classes populares sejam protagonistas.
Não bastam bons projetos para os pobres, é preciso que esses setores estejam no centro, que ajuventude, ao invés de ser criminalizada, seja participante central dos projetos que a libertem dessa concepção de muros, cadeias, extermínio. Temos de produzir outro projeto brasileiro que não contenha essas conjugações.
É complicado resolver a violência, ninguém tem a solução Mas uma cidade democrática é gerida de outra forma e assim produz soluções também democráticas e libertadoras,capazes de permitir que todos usufruam a cidade, apesar das diferenças.
Em suma, é o oposto de tudo isso.
(*) Valéria Nader é editora do “Correio da Cidadania” e Gabriel Brito é jornalista.
Fonte: Correio da Cidadania (20.4.2009)