O 1º Congresso do Mapi foi presidido por Maria José LatgéO debate sobre a posição do PDT nas eleições de outubro para escolha de governador dominou a abertura do 1º Congresso Estadual do Movimento dos Aposentados e Pensionistas e Idosos (MAPI) do Rio de Janeiro, realizado neste sábado (13/3), a partir das 10 horas, no auditório do Centro Cultural Joaquim Lavoura, em São Gonçalo. A polêmica começou a partir da intervenção do presidente do PDT-RJ em exercício, ex-deputado José Bonifácio, primeiro orador a fazer uso da palavra:
-- O PDT ainda não definiu posição e está numa encruzilhada porque pode liberar seus militantes, a pior opção no meu entender; pode lançar candidato próprio, que não antevejo quem poderia ser; ou ainda, realisticamente, optar entre Garotinho e Sérgio Cabral, argumentou, depois de desmentir informação publicada no “Globo” de que o PDT já teria se definido pela reeleição de Sérgio Cabral.

Bonifácio disse que abria o Congresso do MAPI com grande satisfação especialmente pelo fato de os aposentados do PDT terem como líder Maria José Latgé, a quem saudou pela disposição e garra, assinalando ainda que sem ela o encontro não se realizaria. Para Bonifácio, reuniões como a de São Gonçalo eram super importantes para reunir a base e promover discussões.
O deputado federal Brizola Neto, segundo orador a saudar os mais de 200 participantes do evento, também parabenizou o Mapi pelo seu 1º Congresso e definiu Maria José como “guerreira, lutadora que sempre esteve ao lado de Leonel Brizola na construção do Trabalhismo que, a cada dia que passa ganha mais peso por suas lutas e idéias”.
Brizola Neto defendeu o governo Lula enumerando, entre as realizações dele, a retomada pelos brasileiros do petróleo na medida em que só a Petrobrás vai poder operar os novos campos do pré-sal, após a mudança do marco regulatório que está sendo votado no Congresso. Destacou também a presença do PDT e do Ministro Carlos Lupi no Ministério do Trabalho, “gestão que sepultou a agenda neoliberal no setor, na medida em que não se fala mais em reforma trabalhista porque Lupi, na prática, transformou a pasta em trincheira com a marca do PDT”. Em contraposição ao projeto de Lula, destacou, há o projeto entreguista e neoliberal.
“Se prestarmos bem atenção, veremos que boa parte das críticas que hoje dirigem ao Lula se parecem com as que fizeram, no passado, a Getúlio Vargas”. Acrescentou ser incontestável que a vida dos brasileiros mais pobres melhorou, mas admitiu qaue ainda há muito a ser feito.
No plano regional, frisou a responsabilidade política do PDT pelo fato de ter elegido três governadores nos últimos 30 anos. Por isso, acrescentou, além de se alinhar à Lula, “o PDT precisa fazer, no Rio, o que for melhor para o partido entre as candidaturas alinhadas à base federal”.

Já Miro Teixeira, terceiro orador, exaltou a discussão interna porque, segundo ele, ninguém tem o direito de patrulhar ninguém e a divergência, na política, é sempre salutar. “Não podemos é mentir ou falsificar a realidade”, observou. Depois de assinalar que a previdência brasileira “é o maior programa de distribuição de renda do mundo”, criticou Lula pelo fato dele não ter extinto o fator previdenciário e, também, acabado com a restrição para corrigir aposentarias e pensões pelo salário mínimo - como prevê projeto de Paulo Paim aprovado no Senado, mas que está engavetado na Câmara.
(Na foto, Feliciano Araújo cercado por Jorge Mariola (E), Brizola Neto, Osório Vargas e Maria José Latgé)
Miro vê o governo bem em diversos setores, mas acha que ainda é necessário “melhorar muito em vários outros”. Lembrou que quando era Ministro de Lula, no primeiro governo, cobraram que todos os ministros fossem ao Congresso com ele, numa caminhada, quando enviou ao Congresso a mensagem de reforma da Previdência. “Avisei ao presidente que não iria porque não concordava com a iniciativa e não fui”, disse. Por isso, reiterou, é favorável a revogação imediata – pelo presidente Lula – do fator previdenciário que afeta tanto aposentados quanto pensionistas.
Especificamente sobre a questão do Rio de Janeiro, disse não vê “causa para o PDT” seja na candidatura de Garotinho, ou na de Sérgio Cabral. Argumentou que para qualquer lado que se olhe, olhando as duas possibilidades, vê funcionários públicos insatisfeitos: “Eles não fazem ganhar eleição, mas tem peso indiscutível na disputa”. O governo Cabral está desgastado na população, acrescentou, seja por suas políticas, ou não políticas, nas áreas de segurança pública, saúde ou educação. O mesmo acontece com Garotinho. Miro não vê razão alguma para apoiar, ou não apoiar, Garotinho - ou Cabral.
-- Não são causas nossas - não precisamos nos desgastar e decidir, há tempo, não precisamos fechar nenhuma posição nesta reunião de segunda, no Diretório Regional. Apoiar Cabral em troca de duas suplências de senador não é nada porque duas suplências não são nada. Já a vaga de vice-governador e a de senador, que Garotinho nos oferece, também não são grande coisa. Se vamos apoiar alguém precisa ser por suas idéias, não por arranjo político - afirmou.

Fechando seu raciocínio, Miro disse que muita coisa ainda pode acontecer até o final do mês de março, mudando tudo. Por isso, insistiu, o PDT deveria esperar um pouco mais antes de se definir. “Ainda há muita água para rolar”. Disse que a militância precisa ter condições de defender o candidato que o partido escolher, não fazendo sentido, na sua opinião, que pedetistas dêem uma espécie de “apoio envergonhado” a quem quer que seja.
-- Tivemos candidaturas próprias com apenas 1% dos votos. Mas não tivemos vergonha de defender seus nomes nas ruas. Por que faríamos diferente agora? Se tivermos que ir de novo com candidatura própria, qual é o problema? Lupi poderia desempenhar de novo esse papel. Ou outros.
E concluiu:
-- Só faz sentido entrar numa eleição para se fortalecer, nunca para se enfraquecer. Nós do PDT temos muitas vivências e experiências. Basta lembrar que Darcy Ribeiro, por exemplo, saiu muito maior mesmo sendo derrotado em 86. Quem não o elegeu foi o povo. Nós do PDT defendemos o seu nome com muito orgulho e ele mesmo, depois, escreveu aquele texto onde diz que algumas de suas grandes vitórias foram suas derrotas. Quem perdeu foi o povo do Rio. Este ano o PDT pode estar sem expressão eleitoral, mas o partido sempre teve expressão política aqui e precisamos preservá-la. Eles estão atrás de nós não é por nossos votos, nem pelo nosso tempo de tevê: é porque o PDT é uma referência no Rio e por isso, às vezes, é muito melhor caminhar sozinho do que mau acompanhado.
O deputado estadual Paulo Ramos, defensor da tese de candidatura própria mesmo que não seja para vencer, argumentou que não há como ele apoiar Cabral porque nos últimos três anos, na Assembléia Legislativa, sempre se posicionou frontalmente contra Cabral por sua má gestão nas áreas de segurança, de pessoal, de saúde e de educação, entre outras. Já o governo Lula, por mais que tenha melhorado no social, ainda deixou imensa dívida a ser resgatada. “O salário-mínimo de hoje, por exemplo, não passa de 25% do salário-mínimo médio da década de 50”, observou.
“Não há dúvidas da necessidade de trabalharmos pela candidatura de Dilma, mas é preciso dizer também que precisamos avançar mais na sua administração”, assinalou.
Paulo Ramos classificou a política de segurança pública de Cabral como “de extermínio”, citando a morte de 1.300 pessoas em média por ano por resistirem à ação policial, ao mesmo tempo em que policiais também se tornavam vítimas, na medida em que cerca de 150 deles foram mortos no mesmo período. “Não podemos esquecer que para lançarem o PAC no complexo do Alemão, numa única investida policial, 29 pessoas foram mortas”, lembrou. Criticou também o fato de não existir um único setor do funcionalismo que esteja satisfeito com Cabral, a não ser a Magistratura e o Ministério Público.

O deputado fez uma análise do desempenho político de Cabral e de Garotinho, comparando-os. Lembrou que Cabral sempre combateu Brizola e citou o fato dele ter conduzido a sessão da Alerj, no governo Marcello Alencar, onde se tentou tornar Brizola inelegível. Citou também a sua decisão, recente de derrubar o Memorial Leonel Brizola, em parte pronto, sem se preocupar em dar satisfações à família ou anunciar a construção do monumento em outro lugar. “Cabral tem ojeriza a todos os trabalhistas, seja Vargas, Jango ou Brizola”, acusou.
-- Não podemos jogar a nossa imagem pública no esgoto. É inaceitável para nós, pedetistas, ver a cara do Sérgio Cabral na televisão, em nosso horário eleitoral. Se tivéssemos razões políticas minimamente aceitáveis, poderíamos votar tapando o nariz. Mas não temos. Vamos perder a nossa base e não vamos entrar na base dele. Esse acordo, em todos os sentidos, é danoso para o PDT. Já Garotinho, nem precisamos nos estender muito. Por sua traição e tentativa de destruir o PDT, nossa base tem ódio dele.
Na opinião de Paulo Ramos, na eleição deste ano, o PDT só tem uma alternativa – lançar candidatura própria “para dar continuidade e visibilidade à nossa luta”.
-- Caminhar com Garotinho ou Cabral é negar a nossa história, desrespeitar os nossos mortos. Pior do que ficar mal com a opinião pública é ficarmos mal com nós mesmos. Quem decide é o eleitor e precisamos apresentar um candidato que nos represente. Mesmo que seja para depois falarmos que nós apresentamos alternativas, mas a população não quis.
Quanto a nomes, lembrou que Miro citou Lupi, que um grupo do PDT defendia o nome do ex-deputado José Maurício e outros, o nome do vereador Leonel Brizola Neto. Na falta de nomes, colocou o seu próprio nome à disposição. “O fundamental é que o partido decida”.
Benedito dos Santos, integrante do Mapi, também fez uso da palavra, para saudar aos presentes e denunciar o desrespeito aos idosos e aposentados que vem acontecendo em São Gonçalo e também em Niterói, pela atitude das empresas de ônibus de ignorar a lei da gratuidade que beneficia idosos, alegando que são obrigados a transportar gratuitamente idosos apenas, nos ônibus maiores – não nos micro-ônibus. Henrique Porto, presidente do PDT gonçalense, em nome da prefeita Aparecida Panisset, saudou os presentes.
Ainda na abertura, Humberto Assunção, do PDT de Macaé, assumiu a palavra e destacou ser fundamental que o partido aprofundasse, ainda mais, a discussão sobre o lançamento de candidatura própria e, também, sobre a organização partidária. “É impossível votarmos contra Dilma, mas não temos que escolher entre Cabral e Garotinho”, argumentou. A sua intervenção, não prevista, obrigou a presidente da mesa, Maria José, a reiterar que discussões prosseguiriam dentro dos grupos de trabalho – inclusive a levantada pelo Humberto – e que considerava encerrada a cerimônia de abertura.
A mesa da abertura dos trabalhos foi composta, além de Bonifácio, por Brizola Neto, Zezé Latgé, Miro Teixeira e Paulo Ramos; mais o presidente do PDT-SG, também secretário de Trabalho, Henrique Porto; pelo presidente do Mapi local, ex-vereador Benedito dos Santos; e pelos vereadores Dilson Drumond, Geiso do Castelo e Jorge Mariola (gonçalenses) e mais o vereador Felipe Peixoto, de Niterói. Também compareceu um vereador de Itaboraí, além do presidente da seção RJ da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini.
A mesa também contou com a presença dos dois presidentes de honra do Mapi o ex-deputado Affonso Celso Nogueira Monteiro e Feliciano Araújo, amigo e ex-colega de ginásio, no RS, de Leonel Brizola.
Após a abertura houve intervalo para almoço e na retomada dos trabalhos, os participantes do congresso se subdividiram em vários grupos de trabalho: Transporte e Acessibilidade; Previdência Social; Trabalho e Sindicalismo; Políticas Públicas para Idosos e Organização Partidária.
As comissões se reuniram separadamente para discutir os respectivos temas após o reinício do trabalho às 14 horas e, por volta das 17 horas, após a leitura de todos os relatórios em plenário – que serão encaminhados para os diretórios regional e nacional do PDT, Maria José encerrou o Congresso do Mapi. (por Osvaldo Maneschy)